
Faz agora um ano que passei pela fase mais difícil e turbulenta da minha vida... e não foi nada comparada ao que a uma menina, com nome de chocolate, teve que suportar.Quando somos confrontados com situações de extrema injustiça, encaramos com a pergunta que nunca ousamos fazer quando tudo corre pelo melhor: Mas afinal porque é que eu acredito em Deus?Marx afirmou que Deus "é uma droga contra a miséria e o sofrimento da espécie humana". Thomas Hobbes achava que Deus "se baseia no medo e na superstição". Freud defendia que Deus "é um engano e que subsiste devido ao desejo de imortalidade e de um pai protector". Os ateus acham que os crentes em Deus baseiam a sua crença na impossibilidade da prova da sua inexistência. Para eles, os que acreditam em Deus fazem-no porque foram educados a acreditar e as pessoas importantes das suas vidas reforçam a sua crença.Ao assistir ao pesadelo de uma menina ainda ébria com a alegria que empurrava a sua vida, fiz estas perguntas a mim mesmo: Podes-me dar uma boa razão para continuar a acreditar em Deus? Não ouvi resposta alguma.Uns dias mais tarde, entrei sozinho numa degradada igreja de uma aldeia do Douro que à primeira vista diria que estava vazia. Mas não estava! Ajoelhado no chão, à frente do primeiro banco de madeira, um jovem que andaria pelos dezasseis anos, falava em pranto convulsivo para a estátua de Jesus que preenchia o altar. Quando se sentou aproximei-me dele e perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Abanou a cabeça... perguntei-lhe se podia fazer algo por ele. Puxou-me para o banco e começou a falar... contou-me a história da sua vida. Como, ainda catraio, perdeu os pais e o irmão mais velho, a forma assassina como era tratado por uma instituição de menores, a fome que passou quando resolveu fugir dos maus tratos, o frio que sentiu quando dormia na rua, o primeiro trabalho nas obras com apenas doze anos, onde labutou durante 3 meses sem ver o cheiro do dinheiro. Disse-me textualmente: "Pedi esmola, trabalhei a pontapé, passei fome e muito frio... mas nunca fiz nada que me envergonhasse, nunca fiz nada que envergonhasse os meus pais, nunca fiz nada que envergonhasse Deus!"Em toda a narrativa mantive-me num silêncio comovido, assombrado pelo seu sofrimento e espantado com a sua capacidade de superação. Quando ele falou em Deus, não contive uma pequena careta e perguntei-lhe:- Depois do que passaste... como é que ainda acreditas em Deus?O rapaz sorriu pela primeira vez e um brilho acendeu os expressivos olhos verdes:- Como é que um miúdo de nove anos sobrevive sozinho na rua? Se Deus não estivesse do meu lado o que seria de mim? Hoje estou aqui porque foi para aqui que vim quando fugi do orfanato... e, nessa altura, pedi a Deus que me mandasse alguém que gostasse de mim e que tomasse conta de mim.- Ele enviou? - perguntei com alguma descrença. O rapazote segredou-me:- Tenho uma namorada...Compreendi a minha fraqueza… Deus é a nossa fé!